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quinta-feira, março 21, 2013

“Sotôr, quando é que vem pela minha vila?” (Primeira Parte)

Entrevista realizada por Javier (Intermédio I) a Fernando Martínez.


Lisboa, 26 de Outubro 2012


O Diario de Notícias teve a ocasião de entrevistar o Fernando Martínez, um professor que trabalha numa escola do rural luguês, logo de partilhar uma mesa redonda sobre o desmantelamento das escolas de ensino no meio rural, na asociação Cultura do País, em Lugo, na Galiza. No percurso da mesma, O Senhor Martínez pôs em destaque que “a escola é um investimento, jamais é uma despesa”, bem como os benefícios de termos um meio rural vivo, e os problemas que tem de ultrapassar um professor no meio rural.

O Fernando julga que uma escola rural produz mais despesas do que uma escola urbana? Pensa que é preciso um investimento económico superior nas escolas do rural do que nas urbanas?

Se nós percebemos este facto no sentido de investimento por criança, se calhar, sim. Isto é, se por exemplo, dividirmos o que custa à administração ter aberta uma escola rural, no que atinge à dotação de mobília, computadores, transporte escolar, etc; comparado com o que custa manter uma escola urbana, talvez sim seja. Porém, na minha opinião, esse jeito de pensar é errado, além de um bocado perverso. Embora uma escola rural concreta seja mais cara do que uma urbana, temos de olhá-la sempre como um investimento, não como uma despesa.

Em primeiro lugar, é preciso que haja igualdade entre os miúdos do nosso país. As crianças que moram no rural têm o mesmos direitos do que as crianças das cidades.

Em segundo lugar, a sociedade tem de compreender que, o que não é investido em educação, depois resulta em enormes despesas para nosso país, a muitos níveis. Uma geração que tenha carências educativas, criará diferentes problemas sociais. Será uma geração pior preparada para se enfrentar as dificuldades presentes e futuras.





Por acaso, as pessoas adultas e desempregadas têm de tirar cursos de formação profissional para poderem trabalhar, etc. Isso gera despesas do Estado. É isto que o Fernando quer dizer?

Exatamente, o que é poupado por um lado resulta em despesas pelo outro. O que está a acontecer é uma grande privatização de serviços públicos.

A seguir, com o que estava a dizer, em terceiro lugar, não é admissível o que está a acontecer com o ensino em geral. O governo quer poupar e diminuir as despesas das escolas à custa  dos alunos e das suas famílias, com encerramento de escolas no rural, massificação de alunos nas salas de aula das cidades, etc; ao passo que recua a qualidade do seu ensino. Assim, à partida, parece que poupas. Outra coisa é observar onde é que se investe o dinheiro.

O acontecimento teve o opoio de oito palestrantes que proferiram diferentes tópicos sobre o desmantelamento das escolas no rural galego.

Esta situação faz que as famílias que moram num meio rural pouco valorizado social e economicamente achem melhor deslocar-se para as cidades, as quais costumam ser consideradas como uma fonte de oportunidades para os filhos.

Na minha opinião, para atingir uma solução a este problema, as perguntas mais certas que nos temos de fazer são: Quanto custa manter o rural vivo?; Que benefícios traz manté-lo vivo?; por exemplo, é melhor termos de pagar um serviço de bombeiros da Xunta para combater os fogos das florestas galegas ou promover a instalação de granjas de gado extensivo nos nossos montes, com ovelhas, vacas, cabras, etc, que mantenham os montes limpos?; com esta gestão dos montes galegos, quanto dinheiro pouparíamos num serviço antifogos? Outra coisa muito diferente é que haja uma verdadeira vontade política de fazer que o meio rural seja olhado pela sociedade como uma maneira de viver saudável e digna.




Agora, se todo o público que está hoje a ouvirmos e a participar no debate fossem novos docentes sem experiência profissional, o que é que o Fernando julga que pode ser feito para encorajá–los a trabalhar como professores no rural, e para que olhem o mesmo como uma boa opção de trabalho?

À partida é preciso que eles percebam bem o ambiente em que vão viver. Não poucas vezes acontece que o professorado vem das cidades, desconhece por completo o entorno social, familiar e socioeconómico da vila em que é destinado, por exemplo, se não conhece as vilas em que moram as crianças às quais ministra aulas, não conhece as suas famílias, onde é que trabalham os pais dos miúdos, etc.

A educação nasce do ambiente dos meninos, então o primeiro que o sôtor tem de fazer é conhecer o entorno, as vilas, as famílias.

Concordo com a ideia dalguns colegas de profissão, de que hoje em dia não é fácil termos tempo para aprofundar no ambiente dos alunos. Porém, eu julgo que inclusivemente com pouco tempo e com vontade, podemos fazer muitas coisas.

Agora mesmo estou a lembrar uma experiência que tive ministrando aulas em Castrocaldelas. Um dia fiquei chocado quando os próprios miúdos me disseram:

“Sotôr, quando é que vem pela minha vila?”.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Sulcos de Amor no Tejo


 Texto: Fran, 1º de intermédio. 
Fotografia: Gérard Castello Lopes

Gosto de entrar devagar, respeitando escrupulosamente, a processional fila de pessoas que sobem a diário no sempiterno cacilheiro. Mas eu não me acho contente entre a multidão e procuro um lugar solitário na proa do barco. Porque sabe que é assim como me libero, Catarina. Fecho os olhos, respiro profundamente e pego a sua mão, como todos os dias. Ali, ao teu lado, posso sentir em meus outonais cabelos o vento, "quase mareiro", que me transporta aos tempos dos grandes descobridores portugueses. Sou assim um vigia sob o comando de Vasco da Gama, atento ao aparecimento da terra desconhecida além do Tejo.


Lembro-me, ainda fresco, cara Catarina, o primeiro dia em que te vi no cacilheiro. Tu estavas em pé, nesta mesma proa. Eu coloquei-me detrás, olhando como com o índice debuxavas caracóis nos teus cabelos, enquanto lias encobertamente, mexida nos fortes braços do rio, O Capital, de Karl Marx.

Foi assim como que te fitei pela primeira vez e sem tu saberes. Naquele dia, finalizado o trajeto, desci do barco com o único desejo de te ver na próxima viagem.

Demorei meses a me decidir a falar-te. Até que um dia te abordei, como pirata corajoso, decidido já finalmente a enfrentar o seu destino de morte ou vida. E vida acabou por o que encontrei.


Foram anos luminosos, um raio de luz nas trevas. Temporadas de secretos comícios e reuniões clandestinas em que pregavas com afervoramento a necessidade de lutar por uma mudança democrática. Mas a liberdade cobra sempre um tributo. O teu pagaste-o sobejamente...


Eu regressava a casa com um grande sorriso pela minha ascensão no trabalho. Mas o meu rosto foi desligado porque não te achei lá, como esperava. Só vi a mobília revolta, papéis no chão... Rapidamente corri até aos quartéis da malfadada PIDE. Gritei desesperado, bati em suas portas até que o sangue inundou os meus cotenos. Após alguns minutos de angústia, um polícia abriu. Perguntei por ti, Catarina, e a resposta da PIDE tornou-se no teu corpo pequenino, de alma invencível, magoado, desfeito, sem vi...


O apito do barco acorda-me do meu pesadelo e anuncia a chegada ao meu destino. Passo hoje, 25 de abril, em baixo da Ponte que leva o nome deste redentor dia. Uma Ponte que nunca verão os teus olhos, mas que ajudas-te a cimentar com o teu sangue.


Agora, envolvido pelo apito surdo do cacilheiro, com as lágrimas a percorrer as bochechas, livro um cravo, junto a um: “quero-te”, que sai do meu coração, enquanto vejo o teu reflexo nas águas do Tejo, águas que viram nascer o nosso amor. 

A fotografia é de Gérard Castello Lopes. Foi tirada da seguinte fonte: 

domingo, janeiro 27, 2013

O ensino Trás-dos-montes

Toni (Intermédio I), repórter do suplemento português Cultura e Espectáculos, escreveu um artigo para tratar da situação precária por que estão a passar as escolas rurais da montanha luguesa.


Vejam aqui o testemunho do jornalista


depois de assistir ao colóquio realizado em Lugo a 26 de outubro de 2012.



quinta-feira, janeiro 24, 2013

História de uma tasquinha

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O pessoal do intermédio I aceitou o desafio de escrever histórias e diálogos com base nas fotografias de Gérard Castello Lopes. Agradecemos à Vanessa esta História de uma tasquinha.

Esta é a história de uma tasquinha que nasceu há muitos anos numa pequenina e remota aldeia do Norte.

Esta história começa há mais de cinquenta anos, quando os meus avós casaram e vieram morar para esta aldeia. Ao igual que muitas outras pessoas daquela época, daquele lugar, os meus avós começavam uma nova vida sem ter nenhuma coisa que não fosse o um ao outro.

Foi assim que surgiu esta tasquinha, como uma possibilidade de negócio, de ganhar um dinheiro para sobrelevar a nova etapa que tinham à frente. Muito tiveram de trabalhar para aquela tasquinha dar os seus primeiros frutos. Nos seus começos, era a minha avó que se encarregava dela a maior parte do tempo, enquanto o meu avô ia ao monte, ora com gado, ora segar a Castela.

O que lá se vendia era do mais variado, desde cerveja ou vinho até produtos alimentares, passando mesmo por umas meias para os dias frios de inverno, ou um saco de cevada para os cavalos.

Além disso, com a chegada do bom tempo e as romarias, aquela tasquinha tornava-se numa espécie de posto ambulante. Nos primeiros tempos, os meus avós carregavam bebidas e algo para comer numa carroça e lá iam, dispostos a animar qualquer festa dos arredores. Bem sabido é que o vinho pode alegrar as pessoas tanto como uma boa música!

Aquela tasquinha que viu medrar primeiro à minha mãe e depois a mim, hoje é tão-só uma lembrança. É a lembrança de noites de farra, de sons de gaitas e músicas, de cheiro a café de pote, e mesmo de alguma que outra disputa acrescida pelo trânsito de jarras de vinho, mas é, sobreudo, a lembrança de uma vida.


quarta-feira, agosto 01, 2012

A décima ilha dos Açores - Codex Calixtinus (IV)

Eis o último episódio da história do Códex Calixtino andarilho: quem o queira procurar, já sabe, na décima ilha dos Açores, debaixo de um castanheiro - o da televisão é vigarice. 

Nas nossas conversas da tarde eram frequentes as perguntas sobre o que havia ao atravessar o rio, pois o chefe nos dissera que era um lugar perigoso ao que não devíamos ir. Tínhamos muita curiosidade por ver aquela parte da ilha e uma tarde decidimos ir ao outro lado do rio com uma pequena barca que fizera o Diogo.

Mas a pequena embarcação não resistiu as descargas elétricas das moreias e acabamos todos na água, molhados e com queimaduras causadas pelos peixes elétricos. Havia uns meninos a brincar à beira do rio e foram procurar umas pessoas que nos ajudaram a sair e nos levaram ao castro do chefe para que nos curasse as feridas. O chefe já sabia que tentáramos passar para o outro lado, mesmo se ele nos prevenira do perigo. Por isso nos contou a historia do que acontecera há muito, muito tempo:

“Há dois mil anos, quando nós chegamos aqui, a ilha estava dividida em duas partes: uma parte de floresta que ainda existe hoje e uma parte de areia, na qual não havia nada. Na parte deserta decidimos pôr as montanhas que trouxemos de Lugo, os nossos animais e plantas, as praias da Galiza, e construímos uma aldeia igual à que deixamos atrás.

Depois de armar o nosso novo assentamento, alguns homens novos foram caçar à selva, mas não encontraram nenhum animal, só espíritos. Os espíritos tinham um corpo como o nosso, mas a pele era mais escura e tinha riscas brancas, e no lugar donde deveria estar a cabeça, havia madeira, flores e lume!

Os espíritos dançavam, cuspiam lume e os nossos homens voltaram para a aldeia assustados. Os caçadores caminhavam para o assentamento e os espíritos vinham por trás deles, mas enquanto os espíritos tentaram atravessar o rio, as moreias produziram eletricidade pela primeira vez, e eles não puderam vir ao nosso lado. As moreias foram possuídas por um espírito bom que nos protege dos espíritos malvados do outro lado desde esse dia.”

Nós escutamos a historia com atenção e respeito, mas não demos crédito. Espíritos malvados, moreias que salvam guerreiros... não haveria outra maneira de explicar o que acontecera? Pensamos muito na historia que nos contara o chefe, no que nos acontecera a nós e no que se falava na aldeia, e com a ajuda dos conhecimentos de Antropologia da Ana e dos de Biologia da Valéria e da Andreia criamos a seguinte hipótese: os espíritos malvados eram ilhéus nativos, de pele escura pintada às riscas, portavam máscaras de madeira e flores, e estavam a fazer algum ritual quando chegaram os novos habitantes. Os nativos surpreenderam-se ao ver pessoas que não conheciam e perseguiram-nos até ao rio, onde as moreias produziram eletricidade por primeira vez por causa duma modificação genética.

Agora que tínhamos uma hipótese, o nosso maior desejo era ir ao outro lado do rio saber se era certa ou não. Sabíamos que não chegaríamos através do rio porque as moreias elétricas destruiriam a embarcação, mas encontraríamos outra maneira de chegar. Perguntamos na vila se alguém sabia como ir à selva, mas ninguém nos quis ajudar porque tinham medo dos espíritos.

Felizmente, a Andreia e a Valéria fizeram-se amigas, se calhar demais, de dois jovens caçadores que lhes disseram que podiam chegar ao outro lado atravessando as montanhas. Todos queríamos ir à selva, mas alguns devíamos ficar para não fazer suspeitar os ilhéus que íamos visitar os espíritos malvados e pensassem que nós também éramos maus. Decidimos que fossem a Andreia e a Valéria, pois eram as que melhor se entendiam com os caçadores, mais o Telmo, que costumava caminhar pelas montanhas e saberia como se mover.

Saíram uma manhã cedo, antes que se levantassem os habitantes da aldeia, e subiram a montanha. Por volta do meio-dia já estavam no cume, donde podiam ver formosas escarpas, árvores desconhecidas, aves de cores... e ao longe via-se uma pequena aldeia de choças com tetos de colmo. Seria certa a sua hipótese?

Impacientes, desceram a montanha correndo, e logo chegaram à aldeia, onde havia meninos brincando, jovens a plantar, mulheres a falar, etc., mas ao ver as novas pessoas, todos ficaram quietos e calados. Tentaram falar com os nativos, mas eles não compreendiam  a nossa língua, não sabiam o que fazer quando uma mulher jovem e muito bela foi junto do Telmo. Olharam-se nos olhos e algo mágico aconteceu, ninguém sabe o que, mas desde essa mirada o Telmo compreendia todo o que a nativa lhe dizia, só com olhá-la nos olhos. A Andreia, a Valéria e os caçadores voltaram para a aldeia dos castros para contarem a sua aventura, mas o Telmo quis ficar lá, junto à nova mulher que conhecera.

Depois do retorno de todos sem o Telmo, as coisas aconteceram muito depressa.

O chefe da aldeia chateou-se muito mesmo, pois ele não tinha autorizado a expedição, mas ao descobrir a existência da outra aldeia ficou muito contente; começaram assim as duas povoações a fazer amizade. Os ilhéus eram felizes porque eram mais numerosos e andavam a ajudar-se uns aos outros.
   
A Ana terminou o plano do hotel sem ajuda do Telmo, pois ele começara uma nova vida junto a Riheca (a garota da outra aldeia) e não queria ouvir falar de voltar para a Galiza.

Na mesma, a Andreia e a Valéria, no seu propósito de libertar o golfinho prisioneiro da lagoa, descobriram um canal que comunicava com o oceano, o que justificou a existência de peixes marinhos lá. Todos ficamos sossegados, o golfinho não estava prisioneiro.

Quando o Diogo acabou de reparar o barco, era tempo de tornar para casa, para a Galiza.
   
No fim, a Valéria e o Telmo decidiram ficar na ilha até nós voltarmos lá. Já na Galiza, eu, a Ana, a Andreia, o Diogo descobrimos que o Codex Calixtinus ficara esquecido na ilha ao pé dum castanheiro.



A ideia inicial de mostrar a ilha o mundo já não fazia sentido, pois o seu encanto estava em ser desconhecida para as demais pessoas.

A nossa vida na Galiza continua sem muita dificuldade, mas nas férias costumamos navegar à procura da ilha. Por mais que sigamos os passos de São Brandão, de maneira nenhuma voltamos a encontrar a décima ilha dos Açores, e a tristeza toma conta das nossas vidas por não termos ficado lá, na nossa ilha. 






quinta-feira, julho 12, 2012

A décima ilha dos Açores - Códex Calixtinus (III)

Desconfiem do que está a passar na comunicação social nestes dias, é tudo distração e lavagem cerebral. A verdadeira história do Códex Calixtinus é a que Beatriz, Virgínia e Javier, do básico integrado, começaram a contar muitos meses antes - e que podem ler em episódios anteriores deste blogue. 
Eis o terceiro episódio da saga. Três lugueses chegam a uma ilha no meio do Atlântico e descobrem lá uns parentes doutrora.
Na água havia moreia elétricas...
  1. Descrição da ilha: relevo, clima, etc.

Era uma ilha muito bela, mas tudo o que tinha de bela, tinha-o de perigosa. Na água havia moreias elétricas que estragaram o motor do barco e não pudemos avançar. Nesse momento, também um tubarão mordeu e furou o barco, e ao longe vinha a baleia que o engoliria. Estávamos a morrer de medo, era o fim da nossa comprida viagem, mas por sorte a baleia gostara de conhecer a Andreia e a Valeria; foi por isso que a baleia nos ajudou a ficar em terra, carregando com o barco à costas através das ondas.

Depois, ao chegar à ilha, no início não fazíamos ideia se era a que procurávamos no mapa. Estava coberta de brêtema e nevoeiro.

Acho que já passaram três semanas desde a nossa chegada a esta formosa ilha, a décima dos Açores. As pessoas da ilha são muito boas e bondadosas, mas a nossa roupa e o nosso barco eram muito estranhos para eles, e para nós o deles também, não percebíamos nada. Se calhar, quando a baleia nos engoliu entramos numa cápsula do tempo.

Estamos muito longe da nossa casa, temos a ideia de voltar algum dia para devolver o Códice Calixtino à Catedral de Santiago, mas não sabemos exatamente quando, gostamos de viver aqui. Além disso, é preciso um tempo para que o Diogo arrume o barco com ferramentas tão antigas, e também para abrir o negócio.

Os ilhéus levaram uma grande alegria ao saber que éramos de Lugo. Não pararam de nos fazer perguntas: quais eram os nossos antepassados, se a Muralha Romana e o Castro de Viladonga continuavam em pé ….. mas um bocadinho depois, soubemos que eles são celtas da zona de Lugo e que fugiram dos romanos envoltos em vários ferrados de brêtema e nevoeiro, e que partiram para o mar.

As conversas entre os ilhéus e nós eram frequentes. No início, a comunicação era difícil, pois apesar de que os ilhéus falavam uma língua semelhante ao galego, o vocabulário era muito mais primitivo e a pronúncia mais fechada. Contudo, chegamos a entender-nos após horas de falar e muita força de vontade. Assim, os visitantes soubemos da vida quotidiana dos ilhéus. Eram umas pessoas semelhantes a nós, se calhar um pouco mais baixas e mais atléticas, pois passavam o dia a pescar, a apanhar fruta e legumes e a cuidar dos animais.

Na ilha havia por volta de duzentos habitantes que moravam nuns castros que ficavam ao abrigo dumas montanhas; umas montanhas que os ilhéus trouxeram com eles desde o Courel há dois mil anos, e que inclusive tinham neve no cume. Nas montanhas nascia um rio que atravessava toda a ilha, desembocando num formoso delta. O rio semelhava tranquilo, mas no seu interior guardava um perigoso segredo: estava cheio de moreias elétricas! Os ilhéus, com muita imaginação, tiram proveito destas estranhas criaturas, e com a ajuda dum arame submerso na água convertem as descargas dos animais em eletricidade para a vila.

Perto da vila havia uma pequena lagoa de água doce, onde um delfim ficara preso durante uma forte tormenta. A lagoa tinha um encanto especial, que fazia que todos passássemos horas a olhar para ela, mas por razões bem distintas. Eu, o Diogo e o Telmo gostávamos de ver as ilhoas nadar nuas, a Ana pensava em construir um hotel ao lado e Andreia e a Valéria traçavam um projeto para libertar o golfinho.

A sul da lagoa ficavam o delta e umas praias muito belas, de areia dourada e fina que os ilhéus trouxeram consigo da desembocadura do rio Minho. Nas praias viviam umas tartarugas enormes que costumavam brincar com os meninos, mas tinham medo dos homens porque as caçavam. Ao outro lado do rio, a vegetação era a original da ilha, pois ali os nossos novos amigos não plantaram nada nem levaram nenhum animal. Semelhava que ali havia uma formosa selva, cheia de plantas e animais desconhecidos que atiravam a nossa atenção. Mas o chefe da vila advertiu-nos de não atravessar o rio porque a floresta estava cheia de perigos desconhecidos para nós. 


 

Os ilhéus acordavam ao amanhecer, levantavam-se e iam todos se lavar à lagoa. Depois, alguns davam comida ao gado: porcos celtas, tetrazes-grandes, cervos e vacas ruivas das montanhas de Lugo que trouxeram os seus antepassados naquela peculiar arca de Noé, enquanto outros cozinhavam o pequeno-almoço. Nós fomos convidados a dormir na casa do chefe da aldeia, pois era o maior castro de toda a ilha. Éramos uns privilegiados porque a melhor comida sempre a levavam para a casa do chefe e nós só tínhamos que levantar-nos e esperar a que um ilhéu no-la trouxesse.

De manhã, a vida na vila era frenética; enquanto os homens mais fortes saíam caçar e pescar, as mulheres e os meninos apanhavam frutas e legumes que havia nos quintais por trás dos últimos castros; os velhos faziam cestas com juncos ou limpavam as ruas, e outros faziam e arranjavam ferramentas para a caça e a cultura. Na primeira semana tentamos caçar com eles, mas era um trabalho difícil e perigoso, e logo nos mandaram ficar na vila e ajudar nos quintais. A Andreia e a Valéria cuidavam o gado e ensinavam aos ilhéus o melhor para o alimentar e curar-lhe as doenças.

Ao meio-dia, os caçadores, pescadores e recoletores voltavam para a aldeia com tudo o que conseguiram, depois lavavam as frutas e despedaçavam os animais e peixes que comiam ao almoço. Se sobrava algo numa família, trocavam-no por outra coisa que precisassem no mercado que havia na vila. O mercado do meio-dia era o que marcava o ritmo da vida na vila: nele trocavam-se alimentos e peças de artesanato, cozinhava-se e comia-se o almoço, e falava-se de tudo: do que fizeram de manhã, se havia animais enfermos, se algum castro precisava reparação, etc. Depois do almoço, os insulanos dormiam a sesta, pois pela tarde fazia muito calor. Enquanto eles dormiam, nós passeávamos para descobrir a ilha, desfrutar das suas paisagens, ou nadar na lagoa ou no mar. Costumávamos falar sobre os antigos celtas.

Ao entardecer, a vida começava de novo na aldeia: os meninos brincavam pelas ruas; os adultos ensinavam os novos a fazer lanças para a caça, olas para cozinhar, a plantar sementes... e os velhos iam de castro em castro contando antigas lendas sobre uma terra chamada Galiza, a dos seus antepassados. Nesses momentos, o Diogo reparava o nosso barco; eu, a Ana e o Telmo pensávamos em como construir um hotel nessa ilha mágica; e a Andreia e a Valéria tentavam uma e outra vez libertar o delfim da lagoa.

À noite, a vila iluminava-se graças à eletricidade das moreias, e tudo em volta havia grandes lumes para afastar bestas selvagens e maus espíritos. Jantava-se cedo porque de manhã também se levantavam muito cedo, mas antes de dormir costumavam levar uma oferenda de comida e flores aos espíritos das montanhas, para que os protegessem. Parecia que os celtas dormiam sem nenhum problema, mas nós não nos acostumávamos a dormir no chão, com mosquitos, e a ideia de que a ilha estava também habitada por espíritos, fossem bons ou maus.

quinta-feira, maio 17, 2012

Pensamentos de Cacilheiro II


O Javier, do básico integrado das 20h30 , criou os dois heterónimos abaixo. A travessia do Tejo faz parte do quotidiano dele e dela.  


Pedro Rodrigues
(Motorista de elétrico em Lisboa)

Caramba, já são dez da noite e ainda estou à espera do navio para atravessar o Tejo. Vou ligar para casa para avisar de que chegarei por volta das onze da noite.  Espero poder falar um bocadinho com os meninos e saber o que fizeram no dia. A Vera na creche e no infantário. O Nuno trabalhando os dois com os Magalhães que lhes demos. Eu e A Maria atualmente nas férias de Natal.

A verdade é que não sei se os milhões de pessoas que levo e trago no elétrico, subindo e descendo uma e outra vez as ruas de Lisboa, chegam a tempo ao seu destino, mas agora que sou eu o passageiro, gostava de me encontrar um pouco mais cedo com a minha família. Os meninos estão a crescer muito rápido e, porém, vezes não o percebemos, não sei a ra àszão. Se calhar, olhando as águas do Tejo, ele tenha a resposta.


- Estou
- Olá, Maria, daqui o Pedro, udo bem?
- …........

Filipa Gonçalves. Estudante de mestrado na Calouste Gulbenkiam.

Não posso mexer mais as pernas, quero chegar à minha casa já.

Hoje foi um dia perfeito. Desde o inicio deste estágio na Calouste Gulbenkiam estou a aprender um monte de coisas novas. Adoro o trabalho dos pesquisadores que estão à procura de novas descobertas sobre a reprodução dos peixes do Rio Tejo.

Às vezes fico a pensar naquilo que virá depois da minha vida de estudante. Sei que os jovens de hoje temos dificuldades em procurarmos trabalho, mas acho que a vida é uma viagem na qual as pessoas são como peixes que têm de mexer fortemente as barbatanas para subir o rio e chegar ao cimo da montanha.

Não faço ideia das dificuldades que virão. Porém, estou certa de que eu pertenço a este rio e que, vá lá onde eu for, sempre ficará no meu coração.


Bom, já parou o navio, amanhã será um novo dia.

sexta-feira, maio 11, 2012

Fotografias da viagem a Lisboa

 Eis, por cortesia da Belém e do Kiko, duas fotografias da viagem a Lisboa. A primeira ajudará com certeza a preparar as provas de junho. Aproveitem a segunda para alindar as vossas próprias casas.

quarta-feira, abril 18, 2012

Nossa! Como a EOI Lugo cheira ainda a Lisboa!

Leiam este texto de Saleta, do básico integrado das 20h30. Foi imaginado no cacilheiro das 20h30, entre Almada e Cais do Sodré, a 30 de março. Com ele abrimos a nossa série de Pensamentos de Cacilho. Não há Arial, nem Times New Roman nem Verdana disponível para tanta saudade.

ATRAVESSANDO O TEJO

Quando o dia amanhece e o sol ilumina o rio que banha Lisboa, lembro-me da sorte de viver ao lado de um grande fenómeno da natureza e meio de vida de muitas pessoas.

Todos os dias tenho de apanhar um barco que me leva à capital desde o outro lado do rio. Lá trabalho eu, numa fábrica de azulejos, com mais de duzentos anos de tradição. Nas curtas viagens de ida e volta, fico a pensar no decurso dos anos, nas pessoas que vão comigo no barco, nos meninos e nos idosos; e também nas pessoas que já não estão, como os meus avós.

Às vezes, penso em como seria a minha vida se pudesse estudar como na atualidade, com todas as facilidades que a gente nova tem. Mas eu não pude; tive de trabalhar com doze anos para ajudar os meus pais e os meus irmãos.

Quando comecei a trabalhar, pelos anos sessenta, Salazar governava Portugal, por meio de uma ditadura. Semelhava que quando aquilo acabasse o país ia acordar. Porém, outros acontecimentos guiaram os cidadãos para governos que não fizeram bem as coisas; que investiram na banca privada e nos grandes empresários, enquanto que o não fizeram na inovação e novas energias ou tecnologias.

Agora, os meus filhos, com várias licenciaturas, não têm onde trabalhar; os meus pais, que pagaram juros toda a vida, não recebem bastante para viver, e os políticos investem em armas e na Igreja, mas entretanto, reduzem os investimentos em educação e saúde. Isto dá-me muita tristura, porque vejo que os meus netos terão de emigrar em vez de trabalhar no país que lhes pagou as bolsas. Assim, o país empobrece.

Então fico a pensar...quando estivemos pior? Dantes ou agora? Já não sei o que fazer para os ajudar. Vou às greves quando há, e perco o meu salário, mas lá, não vejo juventude a protestar, apenas pessoas já idosas e algum sindicalista. Então, não se importam do que ocorre? Eu acho que a cidadania está tão desesperada...que já prefere ficar em casa, porque isto só o podem solucionar os políticos, que são os que modificam as leis, incrementando os juros aos ricos, aos bancos e às empresas, e eliminando o dinheiro que o estado dá à igreja e ao exército.

Teria tantas coisas que dizer..., mas é um quarto para as nove. Já cheguei a Lisboa, e tenho o tempo justo para tomar um galão e umas tostas antes de entrar na fábrica. Amanhã continuo a escrever.



sexta-feira, março 09, 2012

Códex Calixtinus (II)


Leiam a segunda parte do roubo do Códice Calixtino por desempregados lugueses. O Pão-por-Deus e São Brandão foram cúmplices deste logro. O nosso muito obrigado a Javier, Virgínia e Beatriz por esta história.

A seguir à conversa com a mulher, nós já ficamos a pensar: os Açores serão destino de muitos turistas no futuro, isto é uma oportunidade única. O Diogo faz os barcos, a Ana e o Telmo falam com os turistas e vão com eles de passeio, e a Andreia e a Valéria tratam dos golfinhos, peixes, tartarugas, macacos e enguias dessas ilhas das quais fala esta mulher. Poderíamos montar um negócio entre os seis e assim apagar o nosso nome das longas listas do INEM, e além disso, ganhar dinheiro e trabalhar cada um naquilo que mais gostamos de fazer !! Todos concordamos em que era uma boa ideia. Não sabíamos com certeza se ia funcionar o nosso projeto, mas também concordamos em que não podíamos ficar mais tempo vendo de que lado soprava o vento, e sem trabalho.

Então, depois duns dias, voltamos à adega de São Roque para falar outra vez com a mulher. Dissemos-lhe que gostáramos muito da sua conversa e da história do Códice Calixtino, e queríamos saber mais. Por exemplo, se uma pessoa podia apanhar o livro e ficar com ele um tempo, já que tínhamos vontade de apanhar o livro e ir para os Açores para montar um negócio.

“Sim pode, mas fique a ouvir com atenção: quando a pessoa sai adiante / se sai bem na sua vida, essa pessoa tem a obriga de devolver o livro à catedral para poder assim ajudar outras pessoas no futuro. Por exemplo, outros desempregados como vocês”.

“Mas não sabemos se podemos ler e também apanhar o livro”, disse a Andreia, triste.

“Eu e a minha turma temos bom coração, podes estar certa“, respondeu a Valéria.

“Sim, certeza, certeza”, respondemos eu, a Ana, o Diogo e o Telmo.

“Ótimo, então o que têm de fazer é ir caminhando para Santiago, pedir o Pão-por-Deus pelas casas, ajudar os outros peregrinos do caminho e dar de presente ao Apostolo Santiago o pacote do Pão-por-Deus”, respondeu a mulher.

“Ok, ótimo, obrigado”,respondemos todos com um grande sorriso.

Então, fomos lá à Catedral de Santiago de Compostela desde O Cebreiro. Pedimos o Pão-por-Deus pelo caminho, e ajudamos os peregrinos. Acho que chegamos por volta das onze da manhã num dia de abril de muita chuva, vento e nevoeiro em Santiago. No zimbório da catedral houve uma enorme nuvem preta. Rezamos um bocadinho na catedral e depois deixamos o pacote do Pão-por-Deus aos pés do Apóstolo Santiago. A seguir, entre toda a turma o Apóstolo Santiago e demos uma vista de olhos ao livro e ao itinerário de São Brandão. Não fizemos barulho e lá escapamos de mansinho com o livro, mas o bispo meia hora depois deu o seu passeio rotineiro e não acreditava. Ligou depressa para a polícia, e a notícia do roubo apareceu nas televisões à hora do almoço.

À tarde, fomos de carro para Noia para apanhar o barco do pai do Diogo. Era já noitinha e embarcamos devagar, para não chamar a atenção, às ilhas dos Açores. Estávamos a morrer de medo, de que alguém soubesse que tínhamos o Códice Calixtino. Na televisão diziam que ainda não se sabia quem foram os ladrões, se calhar a catedral não tinha câmara de segurança. A polícia não acreditava que alguém roubasse um livro que ficava debaixo de dois mil kg da estátua do Apóstolo Santiago sem nenhuma ferramenta.

Por sorte, nada aconteceu e fomos navegando através do oceano. O barco estava cheio de provisões e também houve varas de pescar. Nenhum de nós jamais teve a sensação de olhar ao redor e ver água simplesmente. Fomos seguindo o itinerário de São Brandão, e durante a viagem gostamos muito de ver os golfinhos nadando na quilha do barco e as aves migratórias acima de nós.

Contudo, o barco era pequenino e o Diogo esqueceu a biodramina, pelo que às três, quatro horas, ficamos parvos pelo fluxo das ondas e caímos todos ao chão, menos o Diogo, que já estava acostumado a navegar.

Acordamos no estômago duma baleia um bocadinho estonteados, não lembrávamos nada. O Diogo disse-nos que uma baleia engolira o barco enquanto nós estávamos apalermados. Um bocadinho depois a baleia engoliu muita agua e o barco saiu disparado pelos pulmões.

Ao sair, já noite, houve um dilúvio. Ficamos no barco a descansar. Conforme o itinerário, na manhã seguinte seria a nossa chegada à ilha.

Na manhã seguinte acordamos com os berros da Ana e o Telmo:

“ Turma !!!!! Terra à vista !!!!!!

domingo, fevereiro 05, 2012

Décima ilha dos Açores - ILHA DAS FLORES

Saleta, Amanda e Sónia, do básico integrado, escreveram o conto da AUTÊNTICA ILHA DAS FLORES - há outra no arquipélago que leva o mesmo nome, mas é em homenagem a esta, anterior e hoje em dia oculta aos olhares dos curiosos. Leiam com atenção esta história e reparem bem no mapa, pois são os únicos testemunhos escritos que temos dessa ilha.

A ILHA DAS FLORES

Apaixonei-me por ela a primeira vez que a vi, do autocarro onde eu trabalho. É uma mulher muito bonita, a mulher mais bonita que eu nunca vi, tão bela coma o céu da Ilha das Flores e de todos os Açores.

Voltei a vê-la uma e outra vez, cada vez que ela vinha buscar as cartas de correio que eu transportava, para dar a todos os habitantes de Seia. Aguardava com desejo que chegasse a manhã do dia seguinte para recorrer os poucos quilómetros que separavam Maia de Seia, as duas vilas da ilha.

Era uma ilha muito pequena, com muitas praias e cabos, todos eles com nomes de árvores e flores, e uma floresta verde e viva, tão verde que a cor é percebida desde espaços muito afastados. Há também uma igreja e um faro que mostra o caminho a quem não o topa.

Não sabia nada dela, nem o nome, nem se era casada ou solteira. Depois de muitos meses vendo-a, atrevi-me a falar com ela. Já não podia aguardar mais, ardia por dentro em desejos de ouvir-lhe a voz. Para isso, escrevi uma carta. Asim, duma das veces que lhe levava o correio da gente da vila, entreguei-lhe uma para ela no meio das outras. Quando ela revisou as cartas e viu o bilhete a ela dirigida, levou uma grande surpresa. Não aguardava notícias de ninguém, e aquela nota surpreendeu-a. Tempo depois disse-me que a lera uma e outra vez e não se cansara. As palabras que ali escrevera amosavam a um menino namorado coma nunca antes o fizera, mas também um convite para combinar nalgum lugar da ilha.

Cláudia, que assim se chama, respondeu-me à carta no dia seguinte. Aceitava o convite para tomar café no porto, a zona mais turística da ilha. Quando apareceu, fiquei espantado, estava bela, com o seu cabelo longo e preto, e um vestido vermelho que reluzia por onde passava. Falamos e falamos durante horas, até bem chegada a noite. Mais tarde, passeamos pela praia do Porto e a Praia das Hortênsias, e à meia-noite, levei-a a um sítio mágico, onde me agachava de menino quando jogava com os camaradas, e onde ia ouvir o mar, quando me sentia estressado ou agoniado. Era o Cabo Loureiro, baixo duma árvore milenar.

Falámos de nós, dos nossos gostos, da família...até que chegou o amanhecer e decidimos ir cada um para a sua morada.

Teria gostado de ir com ela para acompanhá-la, mas o nosso era um segredo que ninguém devia saber, já que ela tinha um namorado que estava no exterior estudando e não podia ser...

De caminho para casa ia pensando nos seus doces lábios com o seu sorriso, e querendo retornar a vê-la e poder convida-la ao jantar. Na segunda-feira, ela voltou a procurar as letras, tão bonita como sempre e decidi convida-la para jantar à noite, no nosso lugar segredo baixo a árvore milenar, e ela aceitou.Passei toda a manhã e a tarde preparando o jantar, até que chegou a hora.

A noite estava estrelada; estava calor e de fundo ouviam-se as ondas do mar bater contra as rochas.

Cláudia apareceu. Sentámos sobre o tapete e começámos a falar. Os dois estávamos muito próximos, eu podia sentir o meu corpo quando de repente senti os seus suaves lábios com os meus.

As horas passavam e eu sentia-me mais confortável com ela, não queria que a noite terminasse jamais. Eu queria passar o resto da minha vida com ela.
Doente de valor, disse-lhe que queria estar com ela sem ter de esconder-me sempre, porque eu a queria.

Cláudia respondeu-me que ela também me queria, mas não podia deixar o seu namorado porque tinha medo pelo que se pudesse passar com as pessoas da vila, e porque os seus pais se iam opor. Num mês retornaria Vítor a Seia, e o nosso teria que acabar aqui. Tudo voltaria à vida normal sem ele. Nos dias seguintes, não nos voltamos ver... eu não tinha vontade de fazer nada, quase não saía.

À noite saÍa passear até à praia do porto, pensando no que acontecera... Uma das noites, quando estava no cabo da Rocha a ver a agradável noite estrelada, pensando na Cláudia, aproximou-se o guarda da vila, André.

André era uma pessoa, sem nenhuma dúvida, especial. Rodeado de um halo de misticismo, passava as horas no farol da Ilha das Flores, olhando ao horizonte. Na vila circulavam muitas lendas sobre ele; a gente dizia que André era sobrevivente duma forte tempestade no oceano, que chegara à ilha mais morto que vivo, e que tinha tanto medo do mar que não pudera voltar à sua casa. O marinheiro que não podia fazer-se ao mar: a sua causa e a sua condenação.

- Não s
ofras, era um amor impossível, diz André
Eu estava ensimesmado nos meus pensamentos e não respondi
- Ela nunca deixaria o Vítor, é uma pessoa de lei.
- Uma pessoa de lei não é covarde.
- Achas que é covarde renunciar à própria felicidade para tratar dum moribundo?
- O que é que diz?
- Vitor, o casal da Cláudia está muito doente. Ela nunca poderia deixá-lo.

Nesse instante, morria de vontade de sair correndo. Correr e correr, atravessar o monte Azereiro, passar a praia dos Cravos e o bosque da lagoa preta. Entrar em Seia, percorrer as suas ruas, chegar à sua casa e declarar-me sob a luz do luar. Mas não fiz.

Tempo depois, ouvi que a Cláudia já não estava na ilha.

Fazia muito que não me dava ao luxo de pensar
nela. Não sei nem como nem porquê, quando dei conta estava no cabo de Loureiro, à frente da nossa árvore.
De súbito, descobri algo gravado: “
no tiro certeiro vai sempre algo de quem dispara”.

Fiquei sossegado. Agora sabia que tomara a decisão adequada. Se calhar, o destino dos habitantes da Ilha das Flores era não encontrar o amor, nem André e o mar, nem eu e a Cláudia


segunda-feira, janeiro 23, 2012

Desemprego, Códex Calixtino e Açores (I).


LUGO: numa conhecida adega da cidade, desempregados resolvem gamar o Códice Calixtino e partir para a DÉCIMA ILHA DOS AÇORES. Leiam o primeiro episódio desta saga, fiada pelos alunos do básico integrado.

Elenco:

João Vieira: Curso de Direção e Administração de Empresas pela Universidade de Aveiro.

Ana Silva: Curso de Turismo pela Universidade de Évora.

Telmo Ferreira: Curso de Turismo pela Universidade de Évora.

Andreia Gonçalves: Curso de Veterinária. Pós-graduação em mamíferos marinhos pela Universidade de Lisboa.

Valéria Rodrigues: Curso de Veterinária. Pós-graduação em mamíferos marinhos pela Universidade do Algarve.

Diogo Carvalho: Curso de engenharia naval pela Universidade de Santiago de Compostela. Filho de pescadores, ele nasceu em Noia.


Eu, João Vieira, e os meus amigos - a Ana, a Andreia, a Valéria, o Diogo e o Telmo - éramos desas pessoas que, sendo jovens e desempregadas, agora decidimos mudar a nossa vida e caminhar nesta aventura, ou melhor dito, nesta loucura, que ainda nos custa trabalho a lembrar. O seu início foi uma conversa com uma mulher velha e sábia no Toiriz, uma adega de São Roque. Simplesmente lembro algumas coisas desarrumadas, que dissera a velha mulher:

“Morei em Santiago de Compostela há muitos anos porque eu me tornei freira e conheço muito bem a catedral de Santiago de Compostela, e também o livro do Códice Calixtino. Nele há um prego dobrado com o itinerário que seguiu São Brandão na sua viagem às ilhas dos Açores.”

“É pena, com a crise económica, que em vilas pequeninas roubem os sinos, os desenhos, os cálices, e tudo aquilo que pode vender-se, porque a gente tem de dar de comer aos seus filhos. Hoje em dia o país não está bem, o que vocês têm de fazer é teimar na procura de trabalho e não andar a roubar ninguém. Teimem em procurar trabalho no país ou montem um negócio, e se não há sorte, viajem longe se for necessário. Não fiquem quietos jamais.”

“Até agora, por sorte, ninguém roubou nenhuma coisa da Catedral de Santiago. Imaginem, por acaso, que roubam o incensório, ou o Códice Calixtino. Eu ficaria espantada, não acreditaria. Além disso, saibam que não todas as pessoas podem olhar para ele porque quem tiver mal coração não poderá apanhar o livro. O Códice fica debaixo dos pés do Apóstolo Santiago, que pesa dois mil quilos. Apenas as pessoas com bom coração podem mover ao Apóstolo e ler o livro. E mais uma coisa: se alguém aproveita a ocasião de ler o livro quando outra pessoa diferente foi a que moveu o Apóstolo e não tem bom coração, simplesmente verá folhas em branco.”

“O Códice Calixtino tem um enorme poder, realmente, o livro escolhe o seu dono e apenas ficará em boas mãos. O livro partilha o seu poder com a gente de bom coração, e depois dum tempo vai embora para ajudar outra pessoa.”

“Sem dúvida, nós somos de bom coração, mas precisamos dum trabalho para ter dinheiro. Se calhar, poderíamos apanhar o livro esse”, disse a Ana a sorrir.

“Como escolhe o livro o seu dono?”, perguntei eu.

“Nenhuma pessoa sabe de antemão”, respondeu a velha. “Eu, em criança, morava no Cebreiro, e fiz o Caminho de Santiago desde ali com os meus pais. Éramos uma família muito humilde e queríamos pedir ajuda ao Apóstolo Santiago. Ao longo do caminho fomos pedindo o Pão-por-Deus em todas as casas. Ao chegar à Catedral, rezamos ao Apóstolo e deixamos o embrulho do Pão-por-Deus aos pés dele. A seguir, apanhou-nos de surpresa mover o Apóstolo e dar uma vista de olhos ao livro. Foi então que vimos o itinerário pregado de São Brandão. Contudo, perto de nós havia dois homens que estavam a dizer que não tinha nada escrito e que as folhas estavam em branco. Nesse momento eu fiquei a pensar sem entender; se calhar eram cegos. Tempo depois, um dia, eu já era freira, falando com uma parceira, vim a saber que o livro apenas pode ser lido por pessoas de bom coração e espírito. Ela conhecia os dois homens porque iam todos os anos a Santiago de Compostela no mês de Junho, coincidindo com as Festas Patronais da Ascensão. Aqueles dois homens moravam à beira do Caminho de Santiago, em Guitiriz, e jamais deram o Pão-por-Deus aos peregrinos. Por isso não podem ler o livro”.

A ARTE DO DIZER

A ARTE DO DIZER
RECITAL POÉTICO-MUSICAL NA EIO DE LUGO: Um aluno e uma aluna da Escola abriram a Sessão Poética dizendo cada um, um poema à sua escolha. Elsa Noronha, 'a guerreira da palavra' dirá um poema de um poeta da Galiza – “Libremente” de Celso Emílio Ferreira. E os diversos poetas africanos e portugueses e outros cantos irão-se sucedendo: Rui de Noronha, Noemia de Sousa, Almada Negreiros, Ovídio Martins, Natália Correia...

JÁ A SEGUIR! TUGA-LUGO-LENDO!

JÁ A SEGUIR! TUGA-LUGO-LENDO!
APRESENTAÇÃO DO CLUBE DE LEITURA Sexta-feira, 4 de dezembro 19h30 IES OLHOS GRANDES (Feminino)

Encontro com Cabo-Verde

Encontro com Cabo-Verde
SEXTA-FEIRA 4 DEZEMBRO - 17h30 Encontro com Silvino Lopes na EOI Lugo 17H30 IES OLHOS GRANDES (FEMININO) Lançamento do livro "Rimas no deserto" e música cabo-verdiana

CAMPEONATO PLANETA NH

CAMPEONATO PLANETA NH
Cafetaria Biblioteca de Alejandria, 6ª, 13 de novembro de 2009, às 21:30H

CONCURSO PLANETA NH

CONCURSO PLANETA NH
Todos ao mesmo tempo! Escolham a sua resposta!

Lançamento do livro "Do Ñ para o NH" e Campeonato do Planeta NH

Lançamento do livro "Do Ñ para o NH" e Campeonato do Planeta NH
Vem participar!

LANÇAMENTO DO LIVRO "DO Ñ PARA O NH" - 13 novembro 2009

LANÇAMENTO DO LIVRO "DO Ñ PARA O NH" - 13 novembro 2009
A malta a rir aprendendo com o Valentim!